Por Beto Madalosso – Chef e colunista da Revista Tutano.

Você aprendeu a ser corrupto. Eu também. Nós todos.

Nesse país a corrupção se aprende por osmose. Ela entra sem você perceber. Te engole. Você é um pequeno empresário. Um comerciante comum. Tua empresa, como qualquer outra, faz parte da engrenagem da corrupção, na qual para sobreviver é preciso sonegar. “Pode ser sem nota?” ou “Se pagar em dinheiro tem desconto!” Pronto. A parte que iria para o governo fica para você e o que seria imposto é considerado lucro.

Assinar uma carteira de trabalho é um pesadelo, então, você também tripudia sobre teu funcionário. Contrata mão de obra informal e não arca com os direitos trabalhistas.

Agora você é um funcionário. Recebe Vale Transporte sem fazer uso do transporte público, superfatura as notas de hotéis e jantares que serão reembolsados por sua empresa, falsifica atestado médico, desperdiça horas de trabalho nas redes sociais, usa a impressora da firma para fazer os trabalhos da faculdade ou o carro da frota para curtir um final de semana na praia com a namorada.

Na escola teus filhos aprenderam que achado não é roubado e chamam de trouxa o amigo que devolve aquele cinquentão que estava dando sopa no chão da sala de aula. Quando saem, subornam o porteiro do bar para furar fila e mentem a idade para entrar onde menor não entra.

A filha do teu vizinho, que não estuda mais, comprou uma carteirinha de estudante no mercado negro e paga meia para entrar no cinema.

Corruptos? Não . . . são os espertinhos do futuro.

No final do dia você chega em casa e liga a televisão. Lá está um político sendo acusado por desviar dinheiro público. Foi parar na Suíça a verba que taparia os buracos da tua rua, o dinheiro da merenda escolar, das macas do hospital, do salário do policial. O governante roubou dinheiro seu e dos seus filhos. Dinheiro do povo. Você aponta o dedo para ele e chama de corrupto. Você, teu funcionário, teu patrão, teu vizinho, teu deputado, teu presidente. Todos corruptos.

No Brasil é assim: o patrão rouba o funcionário, que rouba o patrão, que rouba o governo, que rouba o povo, que rouba o patrão, que rouba o governo, que… e assim a roda gira.

Nossa sociedade é uma engrenagem movida pela trapaça. Você é apenas um elo da corrente.

É fácil fazer parte de tudo isso. Difícil é sair da engrenagem.

Quer ver?

Se você pagar integralmente todos os impostos ao governo vão te chamar de idiota.

Se você avisar o garçom que ele esqueceu de cobrar um vinho na tua conta te chamarão de idiota.

Se você, ao manobrar, bater no carro de trás e esperar o proprietário chegar para assumir a culpa te chamarão de idiota.

Chamarão teu filho de idiota se ele não tiver coragem de subornar o porteiro da balada ou se ele devolver o dinheiro que achou no chão.

O político que não aceita uma “boladinha de presente” por ter assinado uma nova lei que favorece uma classe empresarial chamam de idiota.

Às vezes me parece que a corrupção não é pelo dinheiro em si, mas pela falta de coragem de quebrar o elo. Falta de personalidade. Falta de caráter. É medo de ficar de fora, de ser o bobão no “mundo dos espertos”.

Covardes! É isso que somos.

Covardes! Apontamos o dedo para o traficante pego em flagrante, apontamos o dedo para o político que carregou dinheiro na cueca, mas não apontamos para o nosso cônjuge que aceitou aquele cargo no governo para receber sem fazer nada, ou que deu uma “graninha” por fora para receber benefícios numa concorrência, ou que vive aparecendo em casa com presentes que diz ter “ganhado” da empresa. Falta autocrítica. Eu entendo.

Talvez as estratosféricas cifras da corrupção entre governo e empreiteiras ou as propinas milionárias de campanha façam a tua micro desonestidade parecer insignificante. Logo, você justifica sua corrupção pela corrupção do outro, “se o governo rouba de mim, vou roubar do governo”, como se uma coisa anulasse a outra – e isso te deixa com a consciência tranquila. Mas lembre-se: corrupção não se combate com corrupção, você está apenas repetindo a atitude das ratazanas que você mais condena.

Proteste! Proteste muito!

Mas não espere que o exemplo venha de cima. Mude de atitude!

Não deixe isso para depois. Talvez seja tarde quando olhar para trás e perceber que passou uma vida tentando mudar o país sem nunca ter varrido a própria casa.

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